ARQUIVO
ARQUIVO: 2018-03
Apelo pela Cultura - Protestos - 6 de Abril
A unidade dos trabalhadores do OPART, E.P.E. garante mais direitos
Mensagem CENA-STE Dia Mundial do Teatro 2018 - Manuel Coelho
Mensagem Europeia do Dia Mundial do Teatro
Sobre os concursos de Apoio às Artes e o remendo extraordinário: Um milhão e meio sector
CONTRA A PRIVATIZAÇÃO DO TEATRO DA ZARZUELA
PCP visita OPART e reúne com representantes dos trabalhadores
Grécia: greve pelo acordo colectivo nos teatros
Contratação de atores no cinema e na TV apoiada por bolsas seniores
SOBRE O VOLUNTARIADO NO FESTIVAL EUROVISÃO DA CANÇÃO
Crescimento da intervenção no Porto
Mulheres no Trabalho Artístico
CENA-STE esteve na Academia Mundo das Artes
Comunicado: Plataforma do Cinema
OPART: pelo resgate da missão artística e cumprimento do Caderno Reivindicativo
Concentração: Professores de Teatro e Expressão Dramática
DEBATE: As mulheres no trabalho artístico
 
ULTIMOS POSTS
 
ARQUIVO
2019-07
2019-06
2019-05
2019-04
2019-03
2019-02
2019-01
2018-12
2018-11
2018-10
2018-09
2018-07
2018-06
2018-05
2018-04
2018-03
2018-02
2018-01
2017-12
2017-11
2017-10
2017-09
2017-08
2017-07
2017-06
2017-05
2017-04
2017-03
2017-02
2017-01
2016-12
2016-11
2016-10
2016-09
2016-08
2016-07
2016-06
2016-05
2016-04
2016-03
2016-02
2016-01
2015-12
2015-11
2015-10
2015-09
2015-08
2015-07
2015-06
2015-04
2015-03
2015-02
2015-01
2014-12
2014-10
2014-08
2014-06
2014-04
2014-03
2014-02
2014-01
2013-12
2013-11
2013-10
2013-09
2013-08
2013-07
2013-06
2013-05
2013-04
2013-03
2013-02
2013-01
2012-12
2012-11
2012-10
2012-09
2012-08
2012-07
2012-06
2012-05
2012-04
2012-03
2012-02
2012-01
2011-12
 
Notícias
 

Mensagem Europeia do Dia Mundial do Teatro
há +77 semanas
MENSAGEM DO DIA MUNDIAL DO TEATRO 2018
Europa
 
Simon McBurney, Reino Unido
Actor, escritor, director de cena e co-fundador do “Théâtre de Complicité”
 
A cerca de um quilómetro da costa da Cirenaica ao norte de Líbia existe um imponente refúgio rochoso de 80 metros de largura e 20 de altura. No dialecto local, tem o nome Hauh Fteah. Em 1951, a análise de datação do carbono 14 revelou ali uma ocupação humana contínua de, pelo menos, 100.000 anos. Um dos artefactos desenterrados foi uma flauta de osso, datada entre 40.000 e 70.000 anos.
Ainda criança, ao ouvir isto perguntei a meu pai:
“Eles tinham música?”
O meu pai sorriu.
“Tal como todas as comunidades humanas.”
 
O meu pai era um arqueólogo natural dos Estados Unidos, o primeiro a escavar em Hauh Fteah, na Cirenaica.
 
Sinto-me muito honrado e feliz por ser o representante europeu do Dia Mundial do Teatro deste ano.
 
Em 1963, o meu predecessor, o grande Arthur Miller disse, num momento em que a ameaça de guerra nuclear pairava sobre o mundo: “Quando somos chamados a escrever num momento onde os braços da diplomacia e da política são tão impotentes e fracos, o frágil mas por vezes amplo abraço da arte deve assumir a responsabilidade de manter unida a comunidade humana”.
 
O significado da palavra Drama vem do grego “dran” que significa “fazer”… e a palavra teatro que vem do termo grego “Theatron”, literalmente significa o “lugar de onde se assiste”. Um lugar não só de onde assistimos, mas também donde vemos, obtemos, entendemos. Há 2.400 anos, Polekleitos o Jovem desenhou o grande teatro de Epidauro. Com capacidade para 14.000 pessoas, a impressionante acústica deste espaço aberto é milagrosa. Um diálogo no centro do palco pode ser ouvido por todo o auditório de 14.000 lugares sentados. Como era hábito nos teatros gregos, quando se observava os actores, podia ver-se também a paisagem nas suas costas. Isto não só mostrava vários lugares ao mesmo tempo; a comunidade, o teatro e o mundo natural; como também unificava todas as eras. Da mesma forma que a obra evocava no presente mitos do passado, estava presente, para além do cenário, o teu futuro final. A Natureza.
 
Uma das revelações mais importantes da reconstrução do Globe de Shakespeare em Londres está também relacionada com o que podemos ver. Esta revelação tem a ver com a luz. Tanto o palco como o auditório eram iluminados por igual. Os artistas e o público podiam ver-se mutuamente. Sempre. De qualquer ponto se vêem  pessoas. Por isso ocorre-nos que os grandes solilóquios de, Hamlet ou Macbeth eram debates públicos e não meditações privadas.
 
Vivemos num tempo em que é difícil ver com clareza. Vivemos uma ficção, mais do que em qualquer outro momento da História ou da Pré-história. Qualquer “estória” pode ser questionada, qualquer relato pode chamar a nossa atenção, como uma “verdade”. Vivemos sempre uma ficção em particular. Aquela que procura afastar-nos. Da verdade. E uns dos outros. E assim, vivemos afastados. As pessoas das pessoas. As mulheres dos homens. Os seres humanos da Natureza.
 
Mas se por um lado vivemos num tempo de divisão e fragmentação, por outro vivemos num tempo de intenso movimento. Como nunca antes na história, as pessoas estão a deslocar-se; muitas vezes voando, caminhando, nadando se necessário; migrando por todo o mundo. E isto é apenas o início. A resposta, como sabemos, é o encerramento de fronteiras. A construção de muros. A exclusão. O isolamento. Vivemos numa ordem mundial tirânica, onde a indiferença é moeda e a esperança uma carga de contrabando. Parte desta tirania é o controlo, não só do espaço, mas também do tempo. Este tempo em que vivemos renuncia o presente. Concentra-se no passado recente e no futuro. Não tenho isto. Vou comprar aquilo.
 
Depois terei que comprar a próxima... coisa. O passado distante é destruído. O futuro, sem consequências.
 
Muitos afirmam que o teatro não pode nem poderá alterar isto. Mas o teatro não vai desaparecer. Porque o teatro é um lugar. Gostaria de chamar-lhe refúgio. Onde as pessoas se reúnem e imediatamente formam comunidades. Como sempre fizemos.
Todos Os teatros são do tamanho das primeiras comunidades humanas, de cinquenta a 14.000 almas. Desde uma caravana de nómadas a um terço da antiga Atenas.
 
Dado que o teatro apenas existe no presente, também questiona esta desastrosa visão do tempo. O momento presente é sempre um tema do teatro. Os seus significados constroem-se mediante um acto comunitário entre o intérprete e o público. Não só aqui e agora. Sem a actuação do intérprete, o público não poderia crer. Sem a crença do público, a interpretação não seria completa. Rimo-nos ao mesmo tempo. Comovemo-nos. Somos arrebatados ou emudecemos. E nesse momento, através do teatro descobrimos a mais profunda verdade: que aquilo que considerávamos a mais privada divisão entre nós, os limites da nossa própria consciência individual, também não tem fronteiras. É algo que partilhamos.
 
E não nos podem parar. Voltamos todas as noites. Todas as noites os actores e o público voltam a reunir-se para representarem a mesma obra. Porque, como disse o escritor John Berge, “Na natureza do teatro há um sentido de retorno ritual”, a razão pela qual foi sempre a forma de arte dos despojados; algo que, por causa do desmantelamento do nosso mundo, é o que somos. Onde quer que existam intérpretes e audiências, as estórias que não se podem contar em nenhum outro sítio serão representadas, seja em óperas e teatros nas nossas grandes cidades, ou em campos que acolhem migrantes e refugiados no norte da Líbia e em todo o mundo. Estaremos sempre unidos, em comunidade, nesta representação. 
 
E se estivéssemos em Epidauro poderíamos levantar os olhos e ver como partilhamos tudo isto com uma paisagem ainda maior. Porque somos sempre parte da Natureza; condição a que não podemos escapar, a de fazermos parte deste planeta. No Globe veríamos como perguntas aparentemente privadas se colocam a todos nós. Com a flauta cirenaica de há 40.000 anos compreenderíamos como passado e futuro são indivisíveis e que a cadeia que une a comunidade humana nunca será quebrada por tiranos e demagogos.

Tradução: João Almeida

Pode ler aqui as mensagens relativas aos outros continentes.